terça-feira, 8 de maio de 2012

O Palhaço


O público brasileiro de uma forma geral não está acostumado a ver produtos nacionais nos cinemas, e quando vê, seja em temática ou forma, nada se aproxima com esta produção. Não por culpa do próprio público, mas por causa do sistema de distribuição do cinema nacional. Selton Mello teve que se dividir entre o personagem e a direção da obra, além do roteiro assinado por ele. Selton tinha um sonho de fazer uma coisa que não se faz muito aqui no Brasil. Um filme que seja popular, mas que também seja refinado cinematograficamente. 
Puro Sangue é o codinome de Valdemar (Paulo José), pai de Benjamim (Selton Mello), que nas noites de espetáculo assume a identidade do palhaço Pangaré. O roteiro do longa propõe atravessar do riso ao choro, explicitando em diálogos e observações o que se tem feito da vida naquela transitividade sem grandes laços. Benjamim, por exemplo, não carrega mais do que uma certidão de nascimento e é quase uma figura inexistente dentro da sociedade, rodando o Brasil sem identidade e ressentindo-se pela crença da ilusão de seus feitos, almejando diariamente fugas. Essa busca por respostas do protagonista acarreta também uma relação curiosa com um objeto: um ventilador. É como se ele precisasse do produto como completude de um vazio, seria a solução da falta que sente de coisas a qual é privado. Tal sugestão é dada em um ato por um personagem ao referir-se sobre o calor assolador. Remete apego a algo, a qualquer coisa que faça sentido, sem temer o absurdo que pareça. Bons personagens complementam a obra, cujas atuações dignificam. Além de Paulo José em estado de graça, o elenco ainda conta com Moacyr Franco, Emílio Orciollo Neto, Jackson Antunes, Jorge Loredo e Danton Mello em breves e ótimas aparições. 
Benjamin se encontra numa época complicada da vida, em que se pergunta se sua real vocação está mesmo no circo. Um dia, ele decide largar sua trupe para se resolver e buscar o que tanto falta em sua vida. Ao mesmo tempo, acompanhamos a história através dos olhos de uma menina, filha de um dos casais da trupe, chamada Guilhermina (Larissa Manoela). A beleza de "O Palhaço" se encontra nos seus personagens. Seja o protagonista e sua emocionante busca pessoal, a menina Guilhermina dona do arco dramático mais lindo do filme, ou mesmo os divertidos coadjuvantes. Todos são igualmente importantes para o filme funcionar. Antes de tudo, a trama fala de família, portanto não é de se espantar que todas as figuras do simpático Circo Esperança demonstrem tamanha alegria de trabalhar, principalmente quando estão juntos. E assim, conseguem enfrentar todas as outras criaturas grotescas e engraçadas que habitam o filme, desde os prefeitos das cidades que visitam, até o hilário delegado apaixonado pelo seu gato (Moacir Franco). Portanto, fica impossível não sentir uma pontinha de tristeza quando vemos Pangaré abandonar sua trupe, vagando sozinho como uma sombra daquele palhacinho alegre da abertura. Mas pelo menos, no decorrer da trama, percebemos que essa jornada foi importante para ele, seja para buscar sua verdadeira identidade (num duplo sentido óbvio, já que o próprio não tinha uma carteira de identidade) quanto para conseguir o seu ventilador. E o momento mais emocionante da trajetória do protagonista se dá através de uma sutileza visual, quando Benjamim entra na loja em que encontra a mulher que supostamente gosta dele, a forma de andar do personagem mesmo não estando vestido de palhaço, ali fica bem claro que Benjamim é Pangaré. Sua vocação foi encontrada, sempre esteve dentro dele. Este filme tem uma estética louvável, conseguiu nos cativar e impor sua grandeza. É um belo filme que é capaz de tirar lágrimas e ao mesmo tempo um sorriso, afinal quem nunca se sentiu perdido diante a vida e precisou experimentá-la de uma outra forma, até que percebe que estava tudo no seu devido lugar, e que tudo não passou de um desconforto interior.
Benjamim precisava sair de seu mundo para encontrar a si mesmo, pois como o pai dele dizia: "Gato bebe leite, Rato come queijo e Eu sou palhaço". Devemos fazer o que sabemos, o que está dentro de nós e fazê-lo com amor.


"O Palhaço" é um filme bem amarrado, bonito e raro hoje em dia. É como o principal objeto ao longo da história: um ventilador, que trás uma nova brisa refrescante num mar quente e monótono. Sempre é hora de redescobrir-se.
Este é um indício que de que o cinema nacional está encontrando um certo requinte, e saindo da mesmice, adquirindo qualidade, beleza e nos contando histórias maravilhosas, acredito que Selton Mello nos presenteará com mais produções dignas de aplaudir em pé, juntamente com lágrimas de felicidade nos olhos.

11 comentários:

  1. Não gosto muito dos filmes daqui do Brasil ,pois sempre vem forçando a pessoa ver aquele negocio cultural meio do interior ou é coisas que não tem a pegada de outro filmes não falo nem dos EUA mais até filme da Alemanha não tem isso e outro filmes de outro países tirando os asiáticos ,pois a cultura dele eles mostram e por sinal é bem interessante essa cultura deles...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso se chama: Pré-conceito.

      Não consegui assimilar o final do comentário, a cultura dos asiáticos lhe parece superior à nossa? Toda cultura merece respeito, inclusive a brasileira. Esse filme não perde nada em comparação com a de outros países.

      Excluir
  2. gostei do trailer
    ta anotado aki, vou baixar logo logo

    ResponderExcluir
  3. Olha eu não sou de curtir filme nacional
    mas esse filme ele tem um ritmo, suave que quase nos faz lembrar a nossa infância.
    o legal que o Selton colocou de tudo no filme como Chaplin, saltibanco os trapalhões.
    Eu ainda quero ver esse filem.
    da visitinha em meu blog.
    http://mundodemerdity.blogspot.com.br/2012/05/voce-pode-vestir-um-cachorro-falar-com.html

    ResponderExcluir
  4. Não curto filmes nacionais :/
    Pra não dizer que não gosto de nenhum, eu gostei muito de DIVÃ, O Alto da Compadecida (sim, eu gosto desse), e outros que não recordo o nome (sou péssima nisso :p). Mas, como você tem gosto pra filmes, pude notar, vou assisti-lo :) Depois te digo o que achei.
    Beijocas !

    http://pontoecruzbordado.blogspot.com

    ResponderExcluir
  5. Concordo com tudo que disse no primeiro parágrafo. Também ressalto que o preconceito público contra os filmes brasileiros não é de todo culpa apenas dos espectadores frustrados, mas pela falta de uma produção válida. Contudo, tenho me impressionado com alguns títulos brasileiros... Muitos estão conseguindo obter minha admiração e garantindo sua própria credibilidade dentro desse mercado.
    Uma resenha interessante e instigadora essa sua. Procurarei assistir ao filme o mais breve possível.
    Obrigado pelas dicas, Marília.

    Grande beijo
    satierff.blogspot.com
    ;*

    ResponderExcluir
  6. Tem muito filme bom no cinema brasileiro... porém não são muito divulgados... ficamos sabendo mais quando são da produção da Globo e neste caso, poucos salvam, como Tropa de Elite e o Palhaço... :) este filme é muito bom... sentimental e engraçado... como os bons filmes italianos... :)

    ResponderExcluir
  7. eu gosto muito de assistir os filmes com Selton Mello, na minha opinião um dos poucos atores brasileiros q admiro com paixão!

    ResponderExcluir
  8. Confesso que esperava muito mais deste filme que achei bem "simplinho" , é um pouco parecido com Bye Bye Brasil do Cacá Diegues , mas bem inferior . Mas claro que selton é um ótimo ator .
    http://andyantunes.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  9. Ma, que linda escrita que acabei de ler. Nunca pensei que ia gostar tanto desse filme e parece bem bonito pelo modo que nos apresentou aqui. Como disse, uma obra nacional digna de aplausos, o ator/ diretor/ roteirista foi caprichoso e demonstrou não ser a toa um dos atores atualmente mais requisitados do cinema nacional. Como diriam antigamente nos circos: "Bravo!"

    ResponderExcluir
  10. gostei desse filme , porém é questão de gosto meu namorado odiou..
    segundo o ponto de vista dele , o filme prometia mais ..
    http://kathyventura.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

SE FOR COMENTAR, LEIA ANTES.
NÃO ACEITO APENAS DIVULGAÇÕES.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...